Sentimento de Culpa à Luz do Espiritismo | Entre Amigos

No programa Entre Amigos, transmitido pela Rádio Boa Nova, Adilson Ferreira e Paula Zamp interpretam a mensagem “O Tempo e o Relógio”. A mensagem reflete, junto aos comentários de nossos comunicadores, os aspectos do sentimento de culpa.

 

Ouça o programa completo no áudio abaixo:

Leia abaixo a mensagem e ouça sua interpretação e análise durante o programa Entre Amigos no áudio acima:

 

O TEMPO E O RELÓGIO

 

Certa vez, o tempo e o relógio se encontraram (embora estejam todo tempo juntos).

O tempo, revoltado há muito tempo, disse ao relógio tudo aquilo que, há tempos, vinha guardando.

Que ele, tempo, tinha saudades daqueles tempos em que não existiam relógios e todo mundo tinha tempo. Mas, quando o homem, ingrato, fabricou o relógio que começou a marcar tempo, ninguém mais conseguiu ter tempo. O homem ficou reduzido a horas, minutos e segundos.

“Antes, naqueles bons tempos” – disse o tempo – “todo homem tinha tempo de curtir a natureza. Viviam com o sol de dia, dormiam com a lua à noite”.

“Quando a lua caprichosa não queria aparecer, era um bando de estrelas que piscavam brincalhonas, dando tempo para o sol nascer”.

“Mas agora, nestes tempos, ninguém mais tem tempo de ver se a lua vem sorrindo para a direita ou para a esquerda, se está de cara cheia ou de mau humor, sem querer aparecer”.

O tempo prosseguiu com um sorriso de tristeza.

“Antigamente – que tempos! – os homens nasciam no tempo certo em que tinham de nascer. Não havia incubadeira para os fora de tempo nem cesariana para os que passam do tempo. A natureza sabia, em tempo, quando era tempo. Hoje, o homem já obedece a você, mesmo antes de nascer. Os médicos estão apressados e sem tempo para perder”.

O relógio só ouvia e, apressado, prosseguia no seu tic-tac sem tempo de retrucar, com medo de se atrasar.

“Noutros tempos” – disse o tempo – “o homem crescia sem pressa, com tempo de amadurecer. Comia sem ter horário, dormia quando tinha sono. Fazia amor ao relento, como flores que se beijam, como aves que se aninham. Envelhecia aos pouquinhos, como um calmo entardecer. Depois, dormia o sono profundo e, no outro despertar, abraçava-me com carinho, no infinito…no infinito…”.

O tempo enxugou uma lágrima, talvez de orvalho. A voz que estava embargada, tomou uma conotação de revolta:

“Hoje, vai logo para a escola e traz para casa um horário. Quando aprende a ler as horas ganha do pai um relógio e, assim, ensinam-lhe bem cedo a maneira mais correta de nunca ter tempo na vida”.

O tempo não se preocupava mais com o tic-tac do relógio que nada retrucava para não se atrasar. Continuou a sofismar com voz mais branda.

“Come apressado, sem tempo. Dorme ainda sem sono, pois, de manhã bem cedinho, você começa a gritar arrancando-o da cama, quando ainda queria dormir”.

“Amor? Nem sei se ainda faz… há gente que nem tem tempo. Quando faz é no zás-trás. Quando vê, já envelheceu, sem ver o tempo passar”.

“Na hora do sono profundo, enterram-no apressados, para a vida continuar. E no outro despertar, chega tão abobalhado que não consegue me achar”.

Ao relógio, sem poder nunca parar, só restava se calar. Além do sentimento de culpa que passou a carregar, a partir desse tempo, quando bate as doze badaladas no silêncio da meia-noite, o canto é tão melancólico que até parece chorar. 

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